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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Igreja e a Arte – Pontos de Contato

A Igreja e a Arte tiveram um relacionamento de altos e baixos nos últimos milênios. Às vezes, a Igreja foi patrona das artes, financiando e apoiando escultores, pintores e músicos com seus recursos. Outras vezes, a Igreja bateu de frente com a Arte, vendo-a como desperdício de tempo ou pior, como expressão de hedonismo e sensualidade.
Hoje, apesar de muitas igrejas não serem muito receptivas a artistas, existe um ressurgimento de interesse e de defesa das artes. Na faixa abaixo dos 40 dos membros da igreja, gostar de arte é como gostar da sua avó, ou seja, apenas os mais retrógrados e incultos não o fazem. Existem duas coisas que nenhum jovem cristão se atreve a ir contra: justiça social e arte.
A paixão por encorajar a arte é compreensível e na maior parte, recomendável. Não só a Igreja tem um longo histórico de apoio à arte, como a Bíblia fala muito bem daqueles com dons artísticos e artesanais (como a famosa dupla Bezalel e Aoliabe). E sejamos honestos, muitas de nossas igrejas não são exatamente um abrigo saudável para artistas. A cultura da igreja é normalmente conduzida pela classe média, não por alternativos e boêmios. Logo, faz sentido que nós precisemos sair da nossa zona de conforto para poder receber artistas e encorajar seu trabalho.
Antes de me aprofundar, quero deixar claro que não vou apresentar uma teologia da Arte. Não sou capacitado para isso. Para aqueles interessados em um tratamento mais completo do Cristianismo e da Arte, eu recomendo o livro “Art of God’s Sake” (Arte para Deus), de Philip Ryken. Não sou um artista. Quer dizer, não sou pintor, escultor, poeta ou dançarino (você, definitivamente, não quer me ver dançando). Já estive em corais e tive algum treinamento vocal. É na música que eu chego o mais perto de algum senso artístico. Mas no geral, me considero um cristão bem mediano quando se trata de artes (mas eu me esforço bastante na ‘arte’ de escrever e pregar, ou seja, estou falando mais da ‘Alta Arte’ nesse texto). Eu gosto de algumas coisas da Arte, acho algumas coisas chatas, e algumas eu simplesmente não entendo.
Como pastor, eu acho que uma ênfase renovada na arte em nossas igrejas pode ser uma coisa muito boa, ou muito ruim. Tudo depende de como o grupo da “arte é a resposta” e o grupo da “arte é estranha” pode chegar alguns pontos de contato e um terreno comum. Em relação a isso, quero oferecer algumas teses a respeito da Igreja e da Arte.
1. Devemos permitir que a arte seja arte. Às vezes, cristãos cometem o erro de achar que para a arte ter algum valor, precisa compartilhar o evangelho ou falar explicitamente de Jesus. Tal abordagem normalmente produz arte ruim e evangelismo ruim. A Arte tem seu valor porque tem a capacidade de ser bela e cheia de verdade. Não podemos achar que a arte vai comunicar da mesma forma que um discurso.
2. Arte tem seu valor, assim como várias outras coisas. Nem sempre os Cristãos sabem o que fazer com a arte. Pensamos “realmente existe algum valor em uma bela dança ou em um poema difícil de entender?”. Mas, se bem feita, a arte pode nos inspirar, confortar, incomodar, e ativar diferentes áreas de nosso cérebro. A Arte nos lembra que a utilidade não é a unidade de medida para o valor. Mas a Arte não é um deus, nem o curso preferido de Deus na universidade. Não há nada intrinsecamente melhor (ou pior) em ser um artista do que ser um contador, um programador de computadores, ou um vendedor.
3. A Arte pode realizar algumas coisas, mas pode não realizar outras. Cristãos normalmente têm problemas com a arte porque ela pode ser ambígua e aberta para muitas interpretações. Ela não está fechada a opiniões. Leva-nos a pensar, mas também a sentir. Ela ‘forma’ mais do que ‘informa’. Nesse sentido, a arte pode ‘ensinar’ sobre como nosso Deus é criativo e belo. Mas a engenharia pode ‘ensinar’ sobre como nosso Deus é coerente e conhecível. Deus é infinito. Várias profissões e várias vocações podem demonstrar seus diversos aspectos. Não devemos cometer o erro – e eu ouço bastante sobre isso – de achar que “poetas, artistas, escritores, eles sim, são os que realmente podem nos ensinar sobre Deus”. Bem, sim, eles podem. Mas os padeiros e os coletores de lixo também podem.
4. Nosso louvor deve buscar excelência artística, mas deve ser inevitavelmente “popular”, direto e objetivo. Eu estou sempre dizendo às pessoas que nós queremos “indiscutível excelência” nos cultos dominicais (agradeço a John Piper pela expressão). Não quero que pensemos que mediocridade é uma virtude espiritual. Cada igreja terá capacidades diferentes, mas o objetivo deve ser a melhor música, o melhor som, os melhores instrumentos, assim como queremos a melhor pregação. O momento de louvor dos cultos não é o melhor momento para dar ao Joãozinho uma chance de arranhar alguns acordes no violão. É uma oportunidade, para aqueles que se esforçaram para estudar e refinar seus talentos, de servir a Deus com seu trabalho.
Por outro lado, as igrejas devem ter em mente que o objetivo do louvor não é exibir o talento de artistas. O objetivo final é edificar congregação e adorar a Jesus para a glória de Deus. Isso significa que a música deve ser simples o suficiente para que centenas (ou milhares) de pessoas sem treinamento possam cantar ao mesmo tempo. Isso também significa que nosso louvor deve lidar com a verdade da forma mais direta possível. Eu não quero pessoas após o culto se perguntando qual era o significado do louvor. Eu não quero que elas pensem em interpretações variadas. Eu quero que a mensagem seja clara e objetiva. Em 1 Coríntios 14, Paulo argumenta em favor da mensagem que é compreendida por todos durante o culto. Não estamos buscando experiências individuais de louvor. Queremos o máximo de clareza, o que significa que não vamos nos desculpar por focar mais na palavra e menos em outras formas de ‘arte’.
5. As igrejas podem aprender a receber artistas, mas os artistas não devem esperar que a igreja seja uma galeria de arte. Como eu disse, a igreja tem um histórico de apoiar a arte. Existe algo único nas artes visuais (estou pensando em pinturas, cartazes, murais, fotografias e etc.) que as torna propícias a serem incluídas no “espaço sagrado”. É complicado para um corretor de imóveis demonstrar suas capacidades no meio litúrgico, mas isso é possível à arte. Se existem artistas talentosos na sua igreja, considere a possibilidade de reservar algum espaço para que seus trabalhos possam ser expostos e integrados ao ambiente. Mas os artistas precisam perceber que a igreja não é uma galeria de arte. Eles precisam ter a sensibilidade para perceber que nem todas as obras podem ser usadas nesse contexto, e a humildade para ouvir um “obrigado, mas… não, obrigado”. Alguns trabalhos não se encaixam no contexto ou no clima da igreja. Algumas obras se tornam antiquadas. Outras nos distraem (em um sentido ruim). E outras simplesmente não são tão boas assim. Apesar disso tudo, a não ser que queiramos voltar ao modelo de igreja da Idade Média, é improvável que a igreja volte a apoiar e incentivar a arte como já fez (pelo menos financeiramente falando).
6. Artistas nos ajudam a reconhecer nossos ídolos, mas artistas também têm seus ídolos. Banqueiros chegam a idolatrar o dinheiro. Há mães que idolatram seus filhos. Acadêmicos muitas vezes idolatram o seu intelecto. Pastores podem acabar idolatrando a pregação. Artistas, a auto-expressão. O pior é que muitas vezes nos orgulhamos equivocadamente de não nos curvarmos aos ídolos dos outros. A boa arte pode ajudar a remover pretensões e pragmatismos excessivos. Bons artistas devem ser humildes a respeito de suas próprias limitações e pecados. E bons cristãos devem sempre almejar a verdade e a beleza, aonde que elas estejam.
Por Kevin DeYoung, traduzido por Filipe Schulz


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